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29 de mai. de 2014

SAUDADE.


      Sinto falta do seu beijo precipitado, do seu perfume ruim, da sensação áspera de quando sua barba começa a crescer e o seu rosto encosta no meu. Do seu abraço desajeitado, do jeito como você segura meu corpo contra o seu quando estamos perto. Sinto falta da sua voz rouca causada pela excitação de quando estamos há muito tempo sozinhos. Sinto falta dos seus olhares surpresos e desconfiados de quando faço algo que você não estava esperando. Sinto falta de deitar sobre seu peito escutando as batidas do seu coração. Sinto falta das conversas íntimas, que você afirmava não ter com mais ninguém. Queria que o mundo fosse nosso por apenas 10 minutos, sem julgamentos alheios, sem certo nem errado, sem convicções de terceiros interferindo, queria que apenas nós existíssemos por dez minutos, e assim pudéssemos ser e fazer o que quiséssemos. Imagino o que você faria comigo durante esse tempo, se as consequências não existissem, assim como o passado que é apenas uma história. O futuro também não existe, tudo que nós temos são esses dez minutos presentes, tudo o que podemos ser, só podemos ser agora! Isso é tudo o que temos!
      Você ainda vai confiar em mim amanhã? Onde você imagina que nossas vidas nos levarão? Quem você acredita que fará parte dela? Sei que não pensa nessas coisas, sei que te faço pensar em coisas que não quer, mas acredito que esse seja o meu papel, acho que preciso impulsionar as pessoas a melhorar. Infelizmente não para mim, acho que não tenho ninguém para mim. Acho que sou apenas uma mulher solitária, com uma escrita ruim, mas fico feliz em ter sua admiração. 
     Essa era apenas uma carta de saudade, pois sonhei com você hoje, mas pareceu mais de despedida. Então... adeus e Boa sorte!.


Meu nome é Lola

Foto: RJ SHAUGHNESSY PHOTOGRAPHY



15 de mai. de 2014

CARTA: OCULTO INEXISTENTE.


     Olá! Tenho certeza de que se viesse a receber esta carta não entenderia nada, acharia que foi engano, ou que existe uma pessoa louca atrás de você. Mas esta jamais será lida por você, você nunca terá o prazer de saber o quanto foi apreciado por mim. Bem, de qualquer modo você talvez ficasse assustado, e não seria essa a reação ideal.
     Só posso dizer que fico feliz por certas coisas que eventualmente você me trouxe, mesmo sem ter a menor intenção de fazê-lo. Estou aqui para dizer que você me deu o melhor abraço da minha vida!, mesmo depois de todos esses anos nada nunca foi como aquilo: natural, terno, carinhoso, despreocupado, espontâneo, íntimo, e sobretudo real. Foi como se um de meus devaneios tivessem tomado vida bem diante de meus olhos, a única vez em que a realidade foi melhor que uma fantasia de minha mente, talvez por isso eu valorize tanto essa memória. Quer dizer foi apenas um abraço, que você nem ao menos deve se lembrar, foi algo tão simples..., acho que as coisas simples são as mais significativas porque são coisas que não prestamos atenção, sempre passam despercebidas por nossos olhos cansados e desatentos, mas se essa simplicidade se faz notar e marca, se torna algo inesquecível. Só posso dizer que ganhei meu dia com aquele abraço preguiçoso na cantina, foi apenas uma forma de cumprimento, você brincando com a minha blusa de frio cobrindo minha cabeça com o capuz, chegando por trás de mim, eu apenas me virei sorrindo, te abracei e você me abraçou de volta, terno, e depositou um beijo em minha testa e assim ficamos por segundos suspensos, num abraço tão verdadeiro e tranquilo que fez dessa a minha melhor lembrança de você!.
     Você fez parte dos meus melhores devaneios por três anos. Ainda me lembro que você foi a primeira coisa bonita que vi naquele colégio, ainda no primeiro dia de aula te vi e jamais esqueci. Você estava fumando com seus amigos no pátio, próximo a passarela que levam as escadas, com uma postura corporal indiferente, de boné aba reta vermelho com seu estilo skatista. Eu te observava do 2º andar do colégio, nesse tempo ninguém percebia que estava sendo observado.
     Sei que o imaginei como quis, sem que houvesse alguma veracidade nisso, sem levar em conta o que realmente era, mas veja isso não era importante para mim, eu gostava de lhe enxergar a minha maneira, era como se algum dia você pudesse se tornar aquilo. Não é como se eu esperasse por isso, jamais acreditei que meus devaneios se materializassem em meu mundo real, você não precisava fazer nada, eu só gostava de te observar de longe... - Como sorria, como beijava sua namorada, como conversava com seus amigos. Mas você começou a notar minhas observações e então nem mais te olhar eu podia, seria estranho se eu continuasse. Ainda assim você sempre foi muito gentil comigo, tínhamos conversas engraçadas; sua namorada parecia me odiar, me distanciei de você, e sinto muito pelos cumprimentos desnecessários e ás vezes constrangedores que tivemos, antes fingíssemos que não nos conhecíamos e parássemos com aquilo.
     Ainda depois de tanto tempo, me lembro de você com carinho. Sempre tenho um imenso carinho pelas pessoas que idealizei, e não importa o quanto eu saiba que as idealizações são falsas, você de certa forma deu vida a elas, te recriei conforme a minha vontade, só para a minha mente solitária divagar, vivi mil vidas, dias e situações com a sua imagem em cada uma delas. Era a minha válvula de escape, uma espécie de salvação mental, enquanto eu ignorava a dura realidade a minha volta. Por isso, obrigado, por mesmo sem saber ter feito parte da minha vida, você teve o melhor de mim acredite, já fui sua de corpo e alma, só não pude avisá-lo do fato. Acho que é assim mesmo, as pessoas que nos tem de verdade jamais tomam posse, e nós jamais tomamos posse delas, somos apenas um emaranhado de desencontros, e para sempre não nos encontraremos, estamos perdidos em nós mesmos, sem solução a longo prazo.
     Cuide-se, que tudo dê certo para você, sinto por não termos tido uma despedida, mas as coisas mais belas de nossas vidas vão embora sem aviso mesmo, sem adeus. Por isso acabou tudo exatamente como começou: do inexistente para o nada.



Meu nome é Lola

Foto: Annette Pehrsson Blog

29 de abr. de 2014

CARTA PARA UM ANÔNIMO



         Hey garoto despreocupado, como vai você?. - Sabe você me intriga bastante, fico imaginando quantas versões existem de você, e qual delas será a escolhida para interagir comigo. Acho que a sua personalidade é meio confusa, afinal, não é um pouco estranho um garoto que curta poesia também gostar de sertanejo? Tudo bem, eu sei que é preconceito e que aparentemente uma coisa não tem a ver com a outra; mas me intriga uma pessoa com sensibilidade para a escrita (e que escreve muito bem por sinal), também ser um baladeiro pegador. Quer dizer, não é sempre que um fã de MPB e de Mário Quintana, também goste de Cannabis e luxúria..., tá, eu sei que os escritores levavam uma vida boêmia, mas ainda assim o acho contraditório. Talvez seja por isso mesmo que o ache interessante, é engraçado, devo te superestimar por coisas superficiais que eu infelizmente valorizo.
      Você é paciente, calmo, educado e tranquilo, mas por dentro parece julgar e observar a todos, parece se sentir acima de muitas coisas, é seguro, malicioso e charmoso, e não consigo encontrar traços de sensibilidade ou vulnerabilidade quando te vejo. Queria saber o que o faz perder a cabeça, o que o deixaria louco? Não consigo imaginar algo que o faria sair dessa posição centrada e focada, como se tudo estivesse cuidadosamente planejado e calculado. Ao mesmo tempo me assustaria vê-lo de outra forma, acho que me acostumei com sua redoma particular, onde só você escolhe quem pode ver através dela. Não tenho a pretensão de adentrá-la, mas não me impeço de pensar em como seria, o que tem dentro? O que esconde aí? E por que eu quero saber? Me estranho com minhas próprias estranhezas, talvez não haja nada demais aí dentro, e minhas especulações sejam completamente equivocadas.
     Eu fico mesmo é fascinada pelas possibilidades de conexão e aprendizados que temos quando nos conectamos no universo particular que existe em cada um, as vezes a ideia de conexão me consome, fico procurando sentidos inexistentes nas coisas, nas pessoas, nas situações... .
      Acho que nunca te conhecerei de verdade, então tudo nunca passará de um resquício de possibilidade; não controlamos as situações que aproximam-nos uns dos outros, é tudo natural e espontâneo, as coisas apenas vão acontecendo sozinhas sem motivos..., nossos caminhos passarão muito distantes um do outro, por mais que eu possa te enxergar de muito longe da minha rua, será apenas isso, uma visão a ser contemplada ao longe.
      Mas é assim mesmo não é? As pessoas que nos parecem algo a mais, sempre são as últimas as quais conseguimos contato, basta dizer "hey aquela pessoa do curso parece muito legal, quero me aproximar dela" para essa pessoa ir para o mais longe que poderia de estar com você. Basta querer para não ter, parece que precisamos não querer para acontecer, não pensar para tornar-se realidade, não é isso que chamam de lei de murph? Talvez você seja uma dessas leis de murph, e tudo não passe de uma extrema ironia, quer dizer, as nossas vidas são apenas coordenadas incessantes da lei, e tudo o que nos resta é admirar de longe o que poderia ter sido, e assim deixar tudo ir... .

Mariana Carolina.

Foto: RJ SHAUGHNESSY PHOTOGRAPHY