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15 de mai de 2014

CARTA: OCULTO INEXISTENTE.


     Olá! Tenho certeza de que se viesse a receber esta carta não entenderia nada, acharia que foi engano, ou que existe uma pessoa louca atrás de você. Mas esta jamais será lida por você, você nunca terá o prazer de saber o quanto foi apreciado por mim. Bem, de qualquer modo você talvez ficasse assustado, e não seria essa a reação ideal.
     Só posso dizer que fico feliz por certas coisas que eventualmente você me trouxe, mesmo sem ter a menor intenção de fazê-lo. Estou aqui para dizer que você me deu o melhor abraço da minha vida!, mesmo depois de todos esses anos nada nunca foi como aquilo: natural, terno, carinhoso, despreocupado, espontâneo, íntimo, e sobretudo real. Foi como se um de meus devaneios tivessem tomado vida bem diante de meus olhos, a única vez em que a realidade foi melhor que uma fantasia de minha mente, talvez por isso eu valorize tanto essa memória. Quer dizer foi apenas um abraço, que você nem ao menos deve se lembrar, foi algo tão simples..., acho que as coisas simples são as mais significativas porque são coisas que não prestamos atenção, sempre passam despercebidas por nossos olhos cansados e desatentos, mas se essa simplicidade se faz notar e marca, se torna algo inesquecível. Só posso dizer que ganhei meu dia com aquele abraço preguiçoso na cantina, foi apenas uma forma de cumprimento, você brincando com a minha blusa de frio cobrindo minha cabeça com o capuz, chegando por trás de mim, eu apenas me virei sorrindo, te abracei e você me abraçou de volta, terno, e depositou um beijo em minha testa e assim ficamos por segundos suspensos, num abraço tão verdadeiro e tranquilo que fez dessa a minha melhor lembrança de você!.
     Você fez parte dos meus melhores devaneios por três anos. Ainda me lembro que você foi a primeira coisa bonita que vi naquele colégio, ainda no primeiro dia de aula te vi e jamais esqueci. Você estava fumando com seus amigos no pátio, próximo a passarela que levam as escadas, com uma postura corporal indiferente, de boné aba reta vermelho com seu estilo skatista. Eu te observava do 2º andar do colégio, nesse tempo ninguém percebia que estava sendo observado.
     Sei que o imaginei como quis, sem que houvesse alguma veracidade nisso, sem levar em conta o que realmente era, mas veja isso não era importante para mim, eu gostava de lhe enxergar a minha maneira, era como se algum dia você pudesse se tornar aquilo. Não é como se eu esperasse por isso, jamais acreditei que meus devaneios se materializassem em meu mundo real, você não precisava fazer nada, eu só gostava de te observar de longe... - Como sorria, como beijava sua namorada, como conversava com seus amigos. Mas você começou a notar minhas observações e então nem mais te olhar eu podia, seria estranho se eu continuasse. Ainda assim você sempre foi muito gentil comigo, tínhamos conversas engraçadas; sua namorada parecia me odiar, me distanciei de você, e sinto muito pelos cumprimentos desnecessários e ás vezes constrangedores que tivemos, antes fingíssemos que não nos conhecíamos e parássemos com aquilo.
     Ainda depois de tanto tempo, me lembro de você com carinho. Sempre tenho um imenso carinho pelas pessoas que idealizei, e não importa o quanto eu saiba que as idealizações são falsas, você de certa forma deu vida a elas, te recriei conforme a minha vontade, só para a minha mente solitária divagar, vivi mil vidas, dias e situações com sua imagem em cada uma delas. Era a minha válvula de escape, uma espécie de salvação mental, enquanto eu ignorava a dura realidade a minha volta. Por isso, obrigado, por mesmo sem saber ter feito parte da minha vida, você teve o melhor de mim acredite, já fui sua de corpo e alma, só não pude avisá-lo do fato. Acho que é assim mesmo, as pessoas que nos tem de verdade jamais tomam posse, e nós jamais tomamos posse delas, somos apenas um emaranhado de desencontros, e para sempre não nos encontraremos, estamos perdidos em nós mesmos, sem solução a longo prazo.
     Cuide-se, que tudo dê certo para você, sinto por não termos tido uma despedida, mas as coisas mais belas de nossas vidas vão embora sem aviso mesmo, sem adeus. Por isso acabou tudo exatamente como começou: do inexistente para o nada.

Mariana Carolina.

Foto: Annette Pehrsson Blog

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